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Profa. Dra. Adriana A. Ramazzina
Artigo
Sacrifício das crianças ou cemitérios
infantis? A polêmica do Tophet no mundo fenício-púnico
A tradição literária bíblica, grega e latina
atribui aos fenícios e cartagineses a prática brutal de sacrifícios
infantis ao deus Moloch, tradição essa incorporada e ilustrada
por Gustav Flaubert em seu romance Salambô, de 1863. A descoberta
de um local em Cartago (em 1921), denominado ‘precinto de Tanit’,
hoje tophet, onde foram encontradas milhares de urnas contendo ossos calcinados
de crianças, assombrou a comunidade científica diante da possível
veracidade da prática. Mas as análises sistemáticas
dessas evidências arqueológicas levantam atualmente novas questões
e propõem novas interpretações.
ABSTRACT
The biblical, greek and latin literary tradition assign to the Phoenicians
and the Carthaginians the brutal practice of child sacrifices to the god
Moloch, which is incorporated and ilustrated by Gustav Flaubert in his romance
Salambô, published in 1863. The discovery of a site at Carthage (in
1921), once known as the ‘Precint of Tanit’, now referred to
as tophet, where thousands of urns containing calcinated bones of children
were found, astonished the cientific community in front of the possible
veracity of that practice. But sistematic analysis of these archaeological
evidences nowadays rise new questions and offer new interpretations.
PALAVRAS-CHAVE: tophet, fenícios, Cartago.A fim de localizar o leitor
histórica e geograficamente, iniciaremos este texto com uma pequena
introdução.
A cultura analisada aqui é a fenício-púnica, que tem
sua origem na Fenícia (Fig. 1), localizada no que hoje é o
Líbano, numa estreita faixa da costa sírio-palestina, ao norte
de Israel. Podemos falar de Fenícia propriamente dita já em
1200 a.C., quando uma série de cidades-estado da costa como Sídon,
Tiro, Biblos, alcançam um grande florescimento comercial e iniciam
uma expansão marítima para o Mediterrâneo Ocidental.
Nessa expansão, fundam colônias em Chipre, na Sicília
(Palermo, Mótia e Solunto, séc. VIII a.C.), na Sardenha (Nora,
séc. IX a.C.), na Espanha (Cádiz, séc. XII a.C.) e
no norte da África, sendo que a mais importante será Cartago,
na atual Tunísia, fundada em 814 a.C. segundo fontes antigas (MOSCATI,
1999, 94 e seguintes).
Cartago por sua vez se tornará uma grande metrópole, com um
império marítimo e comercial que dominou o Mediterrâneo
Ocidental principalmente entre os séculos VI e IV a.C., desafiando
a poderosa Roma. Depois de três grandes guerras, foi finalmente vencida
por Roma em 146 a.C. (MOSCATI, 1996, 23 e seguintes).
Púnicos era como os romanos chamavam os “fenícios do
oeste”, as colônias, o povo e a cultura material deles também
é referida dessa maneira, ficando o termo fenício relacionado
ao povo e à cultura semita do oriente.
Abordaremos aqui uma evidência arqueológica específica
dos sítios fenício-púnicos do Mediterrâneo Ocidental:
o tophet .
Trata-se de uma área sagrada, a céu aberto, delimitada por
um muro rudimentar, no interior do qual eram depositadas urnas cerâmicas
contendo ossos calcinados de pequenos animais e, na grande maioria, de crianças
pequenas. Às vezes eram acompanhadas de cipos ou estelas, onde em
alguns dos quais podia-se ler uma dedicatória ao deus Baal Hammon
e à deusa Tanit. (Fig. 2) (YACOUB, 1996, 17; MOSCATI, 1997, 364).

O termo tophet é emprestado da Bíblia (II Reis 23:10 e Jeremias
7:31) que se refere a um local em Jerusalém denominado Vale do Hinom,
onde se praticavam sacrifícios infantis até 600 a.C., quando
são banidos de Israel. Vale lembrar a história de Abraão
e Isac (provavelmente de 900 a.C.) quando o Senhor ordena a Abraão
que tome Isac, seu primogênito, e o sacrifique, cortando-lhe a garganta,
como prova de sua fé.
Os autores clássicos, gregos e latinos, fazem alusão à
prática dos cartagineses de sacrificarem crianças, como Diodoro
da Sicília (ou Diodoro Sículo), Cleitarcus, Plutarco, Plínio
o velho, Silius Italicus. Em seus textos é descrito o ritual onde
crianças pequenas eram colocadas nas mãos de uma grande estátua
de bronze que as escorregava numa grande pira de fogo (MARKOE, 2000, 132).
Baseando-se nesses autores, Gustav Flaubert em 1863 escreveu seu romance
Salambô, onde conta parte da história de Cartago; ele descreve
o ritual de maneira alucinante, o que contribuiu decisivamente para a fama
dos cartagineses como assassinos frios e bárbaros de criancinhas.
A primeira evidência arqueológica que confirmasse tal prática
só foi encontrada em 1921 (FANTAR, 1995, 74). Até então
a fama cartaginesa parecia apenas um mito. Arqueólogos franceses
encontraram um terreno em Cartago, próximo ao antigo porto, repleto
de urnas cerâmicas e estelas, distribuídas em três camadas
(ou quatro segundo alguns pesquisadores) que chegavam a cinco metros. As
urnas continham ossos queimados, algumas de animais, mas a maioria de crianças.
Uma pequena amostra de ossos foi analisada e concluíram se tratar
de crianças por volta dos 12 anos de idade e eram todos meninos.
Esta era a prova material dos sacrifícios infantis tão comentados
pelas fontes escritas. Os trabalhos se encerraram depois de um ano; esporadicamente
foram retomados nos anos 30 e 40, mas só em 1975, com uma iniciativa
da ONU para salvar as ruínas de Cartago, os trabalhos foram retomados
de forma sistemática. Durante quatro anos, uma parte da área
denominada em 1921 ‘precinto de Tanit’ foi escavada, e o antropólogo
Jeffrey Schwartz (STAGER, 1982, 160) coletou uma amostra de 450 urnas para
análise, a maior até então.
Os estudos levaram mais de duas décadas. Graças a eles, algumas
noções foram revisadas. As análises osteológicas
demonstraram que:
- foram encontrados vestígios tanto de meninos quanto de meninas;
- a verdadeira faixa etária das deposições foi esclarecida:
através de estudos microscópicos do esmalte dos dentes dos
indivíduos, basicamente do padrão de deposição
do esmalte e da busca do traço neonatológico nos mesmos ,
pôde-se verificar que um terço deles era de natimortos ou perimortos,
isto é, abortados. A grande maioria das crianças cremadas
tinha até dois anos.
As pesquisas arqueológicas das últimas décadas também
forneceram novos dados, já que foram sendo encontrados outros locais
como o tofet de Cartago em outros sítios púnicos do Mediterrâneo
Ocidental, como em: Hadrumetum (Tunisia); Cirta (Argélia); Mótia
(Sicília) (Fig. 3); Sulcis, Bítia, Nora, Monte Sirai e Tharros
(Sardenha). Até hoje não se encontrou nenhuma evidência
arqueológica de tofet na própria Fenícia (MOSCATI,
1993; BARTOLONI, 1993).
Nesses locais, as pesquisas arqueológicas também revelam os
mesmos dados que os do tofet de Cartago. 
As análises etimológicas e epigráficas das inscrições
em púnico que algumas das estelas do tofet apresentam têm
se mostrado muito frutíferas. O termo MLK levantou várias
questões. A princípio pensou-se que este termo se referia
a um deus, Moloch, ao qual se entregavam as crianças. Pensou-se
também ao longo das pesquisas que MLK, cuja raiz é a mesma
de REI, significasse sacrifício REAL, digno de um rei, isto é,
uma vida (de uma criança). Hoje em dia a maioria dos estudiosos
acredita se tratar da designação do RITO praticado para
“restituir” a criança morta ao deus, através
do fogo, sendo este deus mais propriamente Baal Hammon.
Assim, novas teorias estão surgindo para se interpretar o local
e se entender os rituais ali praticados. Elas se dividem essencialmente
em duas linhas: a que acredita nos sacrifícios infantis e outra
que não acredita neles.
A linha que acredita terem ocorrido sacrifícios argumenta que era
uma prática freqüente (dado o grande número de urnas
encontradas, em Cartago estima-se mais de 20 mil!) onde se buscava o favorecimento
do Senhor Baal Hammon e da Senhora Tanit, com a imolação
de um de seus filhos. Pedia-se uma bênção ou uma graça,
em troca se ofertava o filho pequeno ou por nascer. Principalmente autores
da primeira metade do século XX seguem essa linha interpretativa.
Outros pesquisadores acreditam até que se tratava de uma forma
institucionalizada de infanticídio, com o objetivo de controle
demográfico, como STAGER (1982) e WAGNER (1991).
Não são a maioria os que seguem esta linha de interpretação,
pois muitas críticas são feitas a suas afirmações:
1o) a taxa de mortalidade infantil nas populações antigas
já era muito alta, 20 a 30%, chegando às vezes a 50%, o
que tornaria impraticável o sacrifício com o intuito de
controle demográfico sem colocar em risco a existência do
próprio grupo humano (SUDER, 1991, 407-408).
2o) Há muitas urnas sem estelas e muitas estelas sem urnas, o que
pode levar à interpretação, junto com a presença
de urnas com ossos de animais, de sacrifícios propiciatórios
(como uma família sem filhos pedindo por um) ou mesmo de agradecimento
por graças alcançadas, não envolvendo necessariamente
crianças (BERNARDINI, 1996, 29-30). Devemos lembrar que Baal Hammon
era a divindade tutelar dos cartagineses.
A outra linha de interpretação não acredita se tratarem
de sacrifícios infantis. Para alguns, o tofet seria nada mais que
um cemitério infantil (BENICHOU-SAFAR, 1995, 146), o que é
corroborado pela ausência quase que total e sistemática de
enterramentos de crianças nos cemitérios comuns. De alguma
maneira não tinham o estatuto de morto comum, talvez por não
terem ainda certa idade, o que determinava um ritual diferenciado, onde
eram cremados e depostos num local sagrado, sendo assim “restituídos”
à divindade, juntamente com o pedido de uma nova criança
sã em seu lugar.
Algumas críticas também são feitas a essa interpretação,
pois de qualquer maneira não devemos simplesmente ignorar as fontes
escritas, nem mesmo as inscrições das estelas que em alguns
casos fazem alusão a uma oferenda valiosa como uma criança.
Para SUDER (1991, 409) e principalmente para BERNARDINI (1996, 29 e 43),
esses rituais preparatórios e de deposição caracterizam
um santuário e não um simples cemitério, levando-se
em conta, como já afirmamos, as fórmulas dedicatórias
das estelas encontradas. Mesmo assim eles não acreditam em sacrifícios.
O ponto crucial aqui é saber se a criança já estava
morta ou não quando eram praticados os ritos de consagração.
Mas isso não pode ser determinado por meio das evidências
arqueológicas.
Sabatino Moscati lidera uma corrente de estudiosos (MOSCATI, 1996; RIBICHINI,
1996; FANTAR, 1992-3) que afirma não se tratar de cemitérios,
pois fica claro que nos deparamos aqui com um santuário, o rito
funerário é sempre o mesmo, durante séculos, as estelas
(Fig. 5) têm características claramente diversas das estelas
normalmente encontradas nos cemitérios comuns, e as inscrições
falam de maneira inequívoca em oferendas.
Em decorrência, uma nova tendência está se delineando
nos últimos anos de interpretação desses vestígios.
Os tofets eram santuários consagrados a Baal Hammon e a Tanit onde
eram realizadas oferendas, sacrifícios propiciatórios e
de graças de natureza diversa. Os prematuros, os recém-nascidos
e as crianças bem pequenas, mortos de causas não violentas,
por não terem o estatuto de um morto comum não podiam ser
enterrados no cemitério da cidade; o que se fazia era devolvê-los,
restituí-los à divindade, segundo um ritual de consagração
específico, o molk ou molek que determinava a sua incineração.
As cinzas eram recolhidas numa urna (Fig. 6) que era enterrada. Poderia
ser acompanhada por uma estela (Fig. 4) que a família erigia para
comemorar a cerimônia e garantir a permanência do voto. Dessa
maneira, pediam saúde ou outro bebê.

A interpretação atual não descarta, entretanto, o
possível uso do sacrifício infantil nos casos de grande
e grave crise, como guerra, fome ou doença, o que poderia ter dado
origem às informações dos textos literários.
Mas somente em situações excepcionais se recorria a essa
prática.
No mundo fenício-púnico, a problemática do tofet
está longe de ser esclarecida. As pesquisas arqueológicas
futuras, contudo, poderão elucidar essa prática intrigante
de seu universo de crenças e costumes, já que diversos santuários
como esse estão sendo sistematicamente escavados, principalmente
na Sardenha, cujos resultados vêm sendo publicados anualmente, e
os já conhecidos, principalmente o de Cartago, continuam a fornecer
novos dados para interpretações.
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