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Profa. Dra. Maria Cristina Nicolau Kormikiari
Dissertação de Mestrado: "Moedas púnicas no
Mediterrâneo ocidental: o processo de aculturação"
Dissertação de mestrado apresentada ao Museu de Arqueologia
e Etnologia e à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo. 1995.
Maria Cristina Nicolau Kormikiari (mestranda)
Profa. Dra. Maria Beatriz Borba Florenzano (orientadora)
Resumo:
Partindo de duas análises numismáticas básicas: de
iconografia e de circulação das moedas, este estudo procura
enquadrar historicamente determinadas séries monetárias
emitidas por Cartago entre os séculos IV e II a.C.. Estas moedas
foram batidas de início na Sicília e, posteriormente também,
em oficinas instaladas por todos os territórios dominados pela
metrópole africana: Sardenha, Península Ibérica e
a própria Cartago. Diversas Instituições e Museus
brasileiros guardam em seus acervos exemplares destas séries monetárias.
A elaboração do catálogo das moedas púnicas
no Brasil foi o ponto de partida desta pesquisa e o documento a partir
do qual fez-se a análise iconográfica. O estudo da circulação
monetária, por sua vez, abarca uma documentação maior,
onde se inclui tanto exemplares das séries conservados no Brasil
como outras emissões púnicas.
No entanto, todas estas moedas mostram-se relacionadas, de uma maneira
ou de outra, ao longo da História cartaginesa. A relevância
do catálogo brasileiro é percebida na análise da
circulação monetária púnica, pois suas peças
são representativas do conjunto maior das cunhagens de Cartago.
Assim, sua contextualização acrescenta vários pontos
à História e ao processo de helenização púnicos,
visto que a moeda é uma invenção cultural grega.
Dissertação de Doutorado
“Norte da África autóctone do século III ao I
a.C.: as imagens monetárias reais berberes”
Tese de Doutorado apresentada ao Museu de Arqueologia e Etnologia e à
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo. 2001.
Maria Cristina Nicolau Kormikiari (doutoranda)
Profa. Dra. Maria Beatriz Borba Florenzano (orientadora)
A moeda é, antes de tudo, um documento material multifacetado. Isto
é, enquanto documento utilizado no estudo das sociedades humanas,
ela abrange os seguintes temas: economia; sócio-política e
religião. A economia é apreendida a partir da percepção
do grau de monetarização da sociedade estudada. De maneira
geral, a adoção da moeda pressupõe uma centralização
governamental que irá gerir as trocas de bens e produtos ao estabelecer
a medida de troca, ou seja, o valor base, e o meio de troca, a própria
unidade monetária, sobre o qual todas as transações,
internas e externas, serão feitas. Uma vez adotado um padrão
monetário, ou mais de um, para metais diferentes, a equiparação
desses padrões monetários entre si e entre outros de regiões
circundantes, as flutuações nos pesos e medidas desses padrões,
etc. são fonte de informação sobre o andamento da economia
da sociedade estudada, e, obviamente, da sua situação política
( processos belicosos, mudanças governamentais, e outros costumam
ser refletidos nas variações cambiais de uma sociedade). A
organização sócio-política e a religião,
por outro lado, também podem ser estudadas através da iconografia
monetária, ou seja, a partir das imagens e das legendas gravadas
no corpo da moeda. Essa iconografia sempre tem razões muito precisas
para ser empregada e nunca é aleatória. Genericamente podemos
afirmar que nela vão estar representadas ideais sociais e religiosos
de parte da sociedade que se utiliza da economia monetarizada.
Outro ponto essencial do documento moeda consiste no fato dele possuir um
remetente e um destinatário, que justamente representam as partes
fragmentadas da sociedade que colocamos acima. O primeiro é sempre
uma instância oficial (um determinado governo ou um poder centralizado),
e o segundo abrange todo um leque de possibilidades (um corpo civil ou militar,
um grupo estrangeiro, um governo estrangeiro, inimigos oficiais). Dessa
maneira, existirá sempre uma forte ligação, na escolha
da iconografia, entre esses dois pólos que se comunicarão
através da moeda. A tarefa primária do estudioso é
estabelecer e definir quem está representado na categoria remetente
e quem está na de destinátrio de determinada cunhagem (conjunto
de séries monetárias editadas por uma sociedade).
Quande nasce, na Lídia, no século VII a.C., a moeda possui
um papel filosófico e econômico. Ela representa, de maneira
prática, a ascenção, no âmbito da sociedade,
do conceito abstrato da noção de valor e, ao mesmo tempo,
representa uma unidade de valor e uma unidade de troca. Todos esses aspectos
passam a estar centrados nesse único objeto, o que não ocorria
anteriormente. Fisicamente, o documento moeda possui características
imutáveis: tem forma ovalada ou redonda, é de metal e possui
uma estampa cunhada centralmente. De maneira geral, outra característica
da moeda na Antigüidade é seu valor intrínseco, isto
é, ela costuma valer o quanto pesava em metal (somente em situações
excepcionais, como momentos de grande estresse econômico e político
em razão de uma longa guerra, por exemplo, é que podemos encontrar
moedas com um valor facial maior do que o seu peso em metal).
Ao longo dos séculos, e ao se difundir espacialmente, o homem antigo
vai perceber uma dimensão não econômica da moeda, que
se tornará de valia incomensurável para ele: as duas faces
permitem a transmissão de mensagens telegráficas em razão
do caráter móvel (passar de mãos em mãos) da
moeda.
Retomando o exposto sinteticamente acima, a iconografia monetária
abrange os seguintes aspectos: crenças religiosas; tradições
históricas; propaganda política (dentro de uma mesma sociedade
ou desta para fora); afirmação ideológica (ser uma
cidade-estado; um rei poderoso; etc.).
A categoria econômica, no entanto, continua a ser utilizada. Assim,
a moeda torna-se um dos índices de existência de comércio
externo e/ou interno; é o meio utilizado para o pagamento dos mercenários,
num primeiro instante, e dos exércitos constituidos pelos cidadãos,
num segundo instante. O exército em particular, na Antigüidade,
representa um corpo da sociedade que esteve sempre em constante movimento,
e portanto, foi importante veículo motor das mensagens cunhadas no
corpo das moedas que recebia como pagamento.
Ao se analisar o uso da moeda em uma dada sociedade é preciso, primeiramente,
delimitar se a sua adoção significou a monetarização
dessa sociedade. A moeda, uma vez criada, foi introduzida em quais categorias:
econômica e política, ou apenas política, restando os
aspectos econômicos ainda por se desenvolver ? Assim, é essencial
realizar essa delimitação. Isto é, a categoria política
sempre esteve presente. Cunhar moedas é um ato, antes de mais nada,
político. Ou seja, antes mesmo de ser um ato econômico. Esse
ato políco vai apenas ganhando ares cada vez mais sofisticados ao
longo do tempo (seu ápice na Antigüidade são os reinos
helenísticos e o Império Romano, com a propaganda explícita
de reis e imperadores).
Podemos colocar que o próprio pagamento dos mercenários e
exércitos é uma ação econômica apenas
superficialmente (isto é, em uma primeira camada), a necessidade
de se ter esse exército que precisa ser pago é econômica,
mas o uso de uma moeda própria (ou do próprio uso da moeda
ao invés de metal bruto, por exemplo) passa pela questão da
existência de um poder oficial que garanta o valor da moeda e também
pela vontade de uma afirmação ideológica de forte caráter
político.
Economicamente, para uma sociedade, emitir moedas significa a realização
de uma série de pressupostos: a abstração da noção
de valor; o desenvolvimento de um mecanismo de trocas internas dissociando-se
de questões religiosas e simbólicas, que ocorriam quando estas
trocas envolviam os chamados bens de prestígio, isto é, objetos
de uso cotidiano que eram retirados de circulação em razão
de serem, excepcionalmente, feitos de metais preciosos - ouro e prata; um
desenvolvimento do comércio externo envolvendo sociedades que utilizavam
sistemas ponderais idênticos ou, ao menos, passíveis de equiparação
(lembrando que as trocas comerciais existiram no Mundo Antigo por séculos
antes da invenção da moeda). De fato, são poucas as
sociedades antigas, como foi o caso da ateniense, onde podemos afirmar que
a economia tornou-se verdadeiramente monetarizada, ou seja, onde existiu
um sistema monetário que abarcava toda uma gama de unidades monetárias,
incluindo as de valores baixos o suficiente para permitirem o seu uso em
trocas prosaicas do dia-a-dia.
Assim, o uso político da moeda, e em consequência a escolha
e utilzação da iconografia monetária, será sempre
um fator presente, enquanto o econômico não. É importante
ressaltar, entretanto, que mesmo sociedades profundamente monetarizadas
ainda se utilizam de instrumentos outros de trocas, como os bens de prestígios,
pois a existência desses objetos não exige a inexistência
dos pressupostos do uso da moeda, que salientamos acima.
Guiando-nos pelo exposto, o trabalho de doutorado “Norte da África
autóctone do século III ao I a.C.; as imagens monetárias
reais berberes” se propõe estudar as cunhagens dos reis berberes
do Norte da África na Antigüidade. Entre a IIª Guerra Púnica
(218-202 a.C.) e a ascensão de Augusto em Roma (primeiro imperador
romano, c. 30 a.C.), uma série de dinastas autóctones emitiram
numerário próprio com seus retratos cunhados nos anversos
das moedas e legendas púnicas e latinas. A iconografia dessas peças,
incluindo a caracterização dos reis, liga-se mormente ao imaginário
líbico-púnico. O caráter essencial destes reinos, baseados
na força guerreira e mágica de seus chefes e no jogo de alianças
políticas internas e externas, a relação com os “súditos”,
as populações semi-nômades e sedentárias berberes,
mas também com as cidades fenício-cartaginesas e berberes,
e, por fim, com as duas potências estrangeiras que dominaram a região
ao longo dos séculos, Cartago e Roma, são abordados com o
objetivo de delimitarmos os receptores dessas cunhagens reais, e assim entendermos
melhor o discurso político por detrás das imagens monetárias.
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