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Profa. Dra. Silvana Trombetta
Memória e Festa
“O momento festivo e a eternidade: a perpetuação da
memória nos mosaicos de banquete”, in Memória e Festa
– Anais do VI Congresso da SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos
Clássicos). Rio de Janeiro. RJ., 2005.
Silvana Trombetta
Os mosaicos de banquete retratavam cenas de convivência social e,
concomitantemente, expressavam o poder e o prestígio dos proprietários
das residências que adornavam. “No mundo antigo permanecer
reclinado para comer e beber enquanto outros o servissem era um sinal
de poder, privilégio e prestígio” (DUNBABIN, 2003,
p.11). Os pavimentos, portanto, enfatizavam duplamente a questão
do poder: o retrato do ato do banquete (que por si só já
era uma ação dotada de prestígio) e o consciente
registro desta atividade no pavimento enquanto um símbolo de poder
que reafirmava as ações da elite.
Os mosaicos analisados neste texto são provenientes da província
romana do Norte da África. Os diferentes tipos de banquete retratados
estão em concordância com o intuito da elite norte africana
de colocar em relevo as diversas ações que compunham seu
modo de vida: as venationes, o epulum, o prazer do ato de banquetear.
Segundo Dunbabin (2003), imagens do indivíduo bebendo isoladamente
ou banqueteando-se em meio a vários convivas eram particularmente
conhecidas no mundo antigo. Este motivo aparece em grande número
de relevos gregos do final do período arcaico e foi regularmente
utilizado na Ática em relevos votivos do século V e IV dedicados
aos heróis. Ele aparece em contextos funerários da Ásia
Menor, principalmente em localidades nas quais o contato com os gregos
foi freqüente. Durante o período helenístico e, posteriormente,
no decorrer do Império Romano, houve acréscimos de figurações
e a presença de valores relativos às tradições
locais. O motivo principal (a presença do morto em atitude de banquete)
é identifícável, porém os elementos locais
conferem à imagem um significado que não pode ser desassociado
do contexto sócio-cultural.
O banquete funerário é representado num mosaico (século
III/IV d.C.) proveniente da necrópole de Tina (BLANCHARD-LEMÉE,
1995, p.80). O mosaico é composto por dois painéis: um deles
retrata um homem (C. Jvlivs Serenvs – falecido aos 61 anos, três
meses e oito dias) e o outro sua mulher (Nvmitoria Satvrnina – falecida
aos 48 anos), estendidos em seus leitos de repouso. Os cestos com rosas
(no mundo dos vivos trazidos por escravos ou servos – tal qual no
conhecido mosaico do Dominus Julius), são no além túmulo
oferecidos aos senhores por erotes. Nos dois painéis, uma figura
com asas, provavelmente psyché, toca um instrumento musical, assim
como os músicos faziam nos banquetes ofertados pela elite. A alusão
ao ato de beber dos defuntos igualmente traz embutido um paralelismo com
o ato em vida: no mosaico de Douga (fig.1), por exemplo, os escravos carregam
ânforas nas quais as inscrições ligam o vinho à
longevidade. São, pois, retratados no pavimento aspectos da vida
cotidiana que “perduram” após a morte, tendo lugar
no túmulo, aeterna domus.

Fig. 1 – Mosaico de Douga (Tunísia). Pavimento da “Casa
do Escanção” - final do século III d.C. (BLANCHARD-LEMÉE,
1995, p.76).
As cenas dos mosaicos possuem múltiplos significados, que se relacionam
ao contexto e à intencionalidade da representação.
Há figurações que podem representar tanto o morto
banqueteando-se numa atitude semelhante a que fazia em vida, quanto o
desejo de que a vida farta se perpetue após a morte. No mosaico
norte-africano de Tina, é nítido o propósito de figurar
os indivíduos num ambiente pós-morte: a presença
de psyché e de erotes, retiram da cena um sentido “realista”.
Por fim, a próprio local onde o mosaico foi encontrado –
necrópole ao norte de Tina – enfatiza o significado da boa
vida após a morte que cena revela.
Memória que relembra os banquetes ocorridos em vida ou coloca ênfase
no anseio de uma não dissolução do modo habitual
de viver no outro mundo: ambas idéias estão relacionadas
ao prestígio do ato de banquetear. Na representação
do mosaico é permitido “eternizar” os atos, é
possível expressar o desejo de bem estar no além e fazer
os atos “reviverem” toda vez que o olhar daqueles que visitassem
a necrópole se deparasse com as cenas dos painéis.
O desejo de perpetuação, porém, nem sempre se correlaciona
ao além-túmulo. Existem mosaicos cujas cenas de banquete
celebram a vida, a confraternização e revelam o intuito
do proprietário de registrar suas realizações, petrificando-as
nos pavimentos.
A ligação do ato de beber com a longevidade (que aparece
no mosaico com cena de banquete funerário) surge, num outro contexto,
no já citado mosaico de Douga (fig.1) pertencente a meados ou ao
final do século III d.C. Neste pavimento, a consumação
do vinho entrelaça-se com o desejo de prolongar a vida. No mosaico,
escravos carregando grandes ânforas vertem o vinho para os convidados.
Há a intenção de imortalizar a generosidade oferecida
pelo proprietário da residência bem como a memória
do ato de beber. Atrás dos escravos encontram-se outros servos
(o da direita segurando um cesto com rosas e o da esquerda um jarro e
uma toalha) de modo a reforçar o caráter hospitaleiro em
relação às figuras centrais que se servem do vinho
oferecido. A inscrição em grego nas ânforas ZHCHC
(longa vida) e PIE (beba) fazem claramente um convite aos participantes
do banquete para que usufruam dos prazeres da bebida. Os cestos com rosas,
que no mosaico do banquete funerário são trazidos por erotes
são, neste pavimento, carregados por servos de modo a afirmar atos
correntes em vida que são dotados de prestígio e que serão,
por isso, desejáveis no outro mundo (como foi visto no mosaico
de Tina).
As dimensões maiores dadas às figuras dos escravos podem
ser atribuídas à uma iconografia “na qual a figura
dos servos no final da Antigüidade passa progressivamente a expressar
luxo e hospitalidade” (DUNBABIN, 2003, p.151). Não obstante,
há mosaicos africanos da Antigüidade Tardia nos quais as figuras
dos servos aparecem em tamanho normal ou diminuto. É o caso do
mosaico de Cartago, pertencente ao século IV d.C. (YACOUB, 1996,
p.211) e do mosaico de El Jem (fig.2), que data do século III d.C.

Fig.2 – Mosaico de El Jem (Tunísia). Pavimento de uma residência
particular – século III d.C. (BLANCHARD-LEMÉE, 1995,
p.210).
No caso do mosaico de Cartago, uma explicação possível
para a não diferenciação da dimensão das figuras
seria a de que a cena de banquete enfatizaria uma comunhão entre
iguais. No mosaico de El Jem, por sua vez, a dimensão menor dos
servos pode estar relacionada a reafirmação da diferença
entre servos e senhores. Outra possível explicação
para o tamanho maior da figura dos servos no mosaico de Douga em comparação
com os demais mosaicos africanos seria a de que eles “corporificariam”
uma representação simbólica – a representação
da longevidade. Não se estaria, portanto, tal qual nos demais mosaicos,
representando simplesmente a figura do servo. O real (presença
de serviçais que devem ser prestativos para com os convivas) se
entrelaçaria ao simbolismo da longa vida. O enlace entre real e
simbólico é presente em mosaicos com outras temáticas,
tal qual a dos cavalos de corrida. De acordo com Fantar (1994), os animais
(cavalos vitoriosos que por vezes possuem seus nomes inscritos nos painéis)
e as facções as quais pertencem muitas vezes simbolizam
as estações do ano: verde (primavera), vermelho (verão),
azul (outono), branco (inverno). Um exemplo, é o do mosaico da
localidade de Douga (Tunísia), pertencente ao século IV
d.C. (FANTAR, 1994,p.188).
O ato de verter o vinho, relacionado ao banquete e à hospitalidade,
aparece igualmente no mosaico de El Alia, pertencente ao século
II d.C. (YACOUB, 1996, p.213). A imagem retrata a cena de um banquete
ao ar livre. Em sua totalidade, o mosaico coloca em voga uma paisagem
que une mar e terra, na qual dois indivíduos apoiados em rochedos
são servidos por uma mulher. Ao lado, um servo derrama bebida numa
taça. A imagem aparece dentre inúmeras outras de um painel
composto por cenas de pescadores puxando redes, fazendas fortificadas,
residências com pórticos, trabalhadores rurais. Os convivas
e a bebida, em conjunto com as demais representações, coloca
em relevo aspectos da vida em áreas próximas a rios ou mar.
Cabe lembrar que, geograficamente, El Alia possuía pequenos golfos
marítimos, o que enfatiza o aspecto realista: a representação
das propriedades à beira mar. No pavimento, o banquete é
uma das cenas que, dentre as demais (pesca, cultivo agrícola),
evoca o bem-estar de vida das elites em suas propriedades. Os indivíduos
da cena do banquete são os únicos no painel que aparecem
numa posição de repouso e momento de prazer, em visível
contraste com figurações nas quais homens e mulheres são
retratados em pleno trabalho. Por sua vez, o trabalho efetuado pelos indivíduos
das camadas mais baixas da população, garante à elite
o bem estar por ela usufruído em sua propriedade. A fartura propiciada
pela terra une-se à fartura de um mar repleto de peixes.
A cena de banquete do mosaico de El Alia, se diferencia das demais figurações
presentes em pavimentos norte-africanos pelo caráter de informalidade
que o conjunto denota. Em outros mosaicos, tais como os da localidade
de Cartago e El Jem o banquete possui um outro caráter, no qual
ele se associa às atividades populares patrocinadas pela elite.
No citado mosaico da localidade de Cartago (século IV d.C.), todos
os personagens estão dispostos de modo equivalente dentro de um
grande painel de forma elíptica. Os indivíduos, os comes
e bebes, conjugam-se com imagens de dançarinos e músicos,
integrando a composição de um grandioso banquete.
Esse pavimento, que adorna uma residência privada, possui a intencionalidade
de representar o banquete ligado a uma atividade pública. Nesta
cena, o que se observa pode ser “não uma generosa festividade
particular, mas o registro de uma munificência pública”
(DUNBABIN, 2003, p.90). A posição dos personagens –
sentados e não reclinados – mais do que uma discutível
mudança nos hábitos das camadas mais altas da população
durante a Antigüidade Tardia, pode significar a imagem de um epulum
organizado “não para os decuriões ou a elite da cidade,
mas talvez para o conjunto da população; uma forma mais
simples, menos honorífica de refeição foi adequadamente
adotada. O mosaico, sem paralelo dentre o grande número de mosaicos
conhecidos na África neste período, utiliza todos os recursos
do meio para restituir a atmosfera da ocasião: os bancos e mesas
colocados talvez num espaço público como o fórum;
a população vestida com suas melhores roupas; escravos que
se movem com cuidado entre os convivas, músicos e dançarinos
no centro. No meio disto tudo, os generosos anfitriões exultam
devido a admiração de seus seguidores.” (DUNBABIN,
2003, p.91).
Outra provável interpretação é a de que o
mosaico retrata uma festa organizada para celebrar um evento. Ennaïfer
(1995), lembra que, por sua forma oval, o mosaico assemelha-se ao interior
de uma arena na qual os convidados tomam lugar e que o painel, por conter
um número elevado de personagens numa cena de banquete (vinte e
oito pessoas), incita a pensar em uma festa organizada pelos proprietários
da casa para festejar com seus amigos um evento familiar: o exercício
de uma nova função pública ou a vitória de
sua facção eqüestre nas competições.
O fato deste pavimento ser um único exemplar com a imagem de um
banquete com vários convivas, torna complexa sua interpretação.
É particularmente difícil encontrar mosaicos nos quais vestes
e/ou atitudes dos personagens não marquem as diferenças
de classes. O fato de não haver diferenciação nas
vestimentas pode tanto caracterizar uma confraternização
entre iguais quanto um desejo do proprietário de se fazer retratar
entre seus clientes de modo mais “igualitário”. Entretanto,
seja num ou noutro aspecto, o proprietário, ao encomendar um pavimento
que coloca em relevo sua “generosidade” no ato de ofertar
um banquete a seus convidados, reitera a diferença social no intuito
maior de registrar uma ação que é realizada não
por quaisquer indivíduos, mas por membros de um determinado grupo
social (elite).
O mosaico de El Jem (fig.2), no melhor estilo africano de realçar
aspectos da vida real, retrata as corporações de venatores
em pleno ato do banquete. A forma semicircular do local no qual se encontram
os cinco participantes lembra o de uma arena, mas não há
nela o espetáculo: ele cede lugar à representação
dos responsáveis pela organização dos jogos. Cada
indivíduo porta o símbolo de sua corporação
e inscrições aparecem acima de suas cabeças. Da esquerda
para a direita, o indivíduo com uma folha de hera representa a
corporação dos Tauriscus (a inscrição diz:
“dispamo-nos” – (n) nvdi (f) iemos); o homem com uma
coroa de três pontas acrescida de um S , representa a corporação
dos Sinematii (com a inscrição: “nós viemos
para beber” – bibere venimos); o terceiro com uma coroa de
cinco pontas sobre a qual existe a imagem de um peixe representa os Pentasii
e sua inscrição diz: “falemos bastante” (ia
(m) mvltv (m) loqvimini); o quarto personagem com uma espiga representa
os Leontii (com a inscrição: “divirtamo-nos”-
avocemvr) e, por fim, a corporação dos Telegenii representada
pelo homem com um crescente e cuja inscrição diz: “nós
nos somos convenientes” (nostres tenemvs).
Os animais figurados na arena não estão em atitude combativa.
Eles se encontram em estado oposto ao da vigília, expresso não
só pela disposição dos touros na arena (agachados),
mas também pela inscrição: “silêncio,
touros dormindo” (silentiv(m) dormiant tauri). Embora à primeira
vista o mosaico pareça realçar o aspecto da confraternização
na medida em que os vários representantes são figurados
na parte superior do painel sem que nenhum dos personagens se diferencie
dos demais, o exame do pavimento simultaneamente revela uma intenção
diferente do realce de um ato ameno. A presença de quatro grandes
espigas emoldurando o painel dá destaque à corporação
dos Leontii e a inscrição na arena pode simbolizar o desejo
de que a corporação dos Tauriscus seja derrotada. Slim (1995),
endossa o valor mágico da inscrição, que seria destinada
a provocar a derrota da equipe dos Tauriscus. Além do banquete,
a conexão com o real proporcionada pelo pavimento evidencia a disputa
entre as corporações.
Apesar deste mosaico se diferenciar do pavimento de Cartago, no qual o
caráter de confraternização dominava o conjunto,
sem o aparecimento do aspecto competitivo, o pavimento de El Jem é
semelhante ao de Cartago na questão do público e do privado.
As corporações de venatores são figuradas de modo
a colocar em relevo sua importância na organização
dos espetáculos públicos. Elas são representadas
na parte superior do pavimento com os respectivos símbolos e compartilhando
o vinho que lhes é servido. O registro das corporações
no ambiente da arena e não num espaço privado, acentua a
importância dos eventos públicos pelos quais são responsáveis.
Tal registro está em concordância com o gosto popular que
as venationes alcançaram na província norte-africana onde,
contrariamente às demais províncias do Império Romano,
eram mais apreciadas do que as corridas de carro. Ao mesmo tempo, o pavimento,
ao adornar uma residência particular, permite o reconhecimento pelos
demais membros da elite e a afirmação no âmbito privado
do poder que seu proprietário possuía na esfera pública.
No mosaico de Cartago, de modo similar, o proprietário, ao registrar
na esfera particular um evento público, realça seu papel
enquanto um indivíduo poderoso que oferece um banquete à
cidade e, simultaneamente, faz-se retratar no painel de modo a ter seu
generoso ato reconhecido pelos integrantes da elite norte-africana que
freqüentavam sua residência.
Os mosaicos com cenas de banquete são, portanto, guardiões
da memória, testemunhos de um tempo passado no qual os agentes
do mundo humano colocaram em relevo seus desejos, seu poder e prestígio,
seu modo de vida. Se o intuito primeiro dos antigos era o de perpetuar
seus atos para serem reconhecidos por seus semelhantes, paradoxalmente,
e de modo complementar, o exame dos pavimentos nos dias atuais permite
a apreensão de um estilo de vida não mais existente e a
verificação de que a memória assinalada pela elite
norte-africana não ficou restrita à sua época. A
análise das cenas presentes nos pavimentos obrigatoriamente induz
a um constante rememorar e nos aproxima do cotidiano vivenciado pela elite
norte-africana durante o período de dominação romana.
São lembranças de um mundo antigo eternizadas em mosaicos.
BIBLIOGRAFIA:
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Bibliografia Geral:
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